performances 1

A PERFORMANCE

Com a chegada dos anos 80 e, principalmente, com o aparecimento de novos meios de comunicação, tem-se progressivamente alterado todo o esquema relacional entre as pessoas, fazendo-as (re)agir intensamente e em simultâneo a uma série de situações. Diversas barreiras têm-se diluído, e vai-se generalizando a noção de que tudo tem a ver com tudo. Tanto a nível social, como a nível económico, informacional, político ou artístico.
Os artistas tomaram consciência que só utilizando os novos média teriam possibilidades de realizar uma acção verdadeiramente actuante dentro de uma sociedade sobrecarregada de poderosos meios comunicacionais.
Assim, artistas com experiências diversificadas provenientes da pintura, escultura, dança e música, têm intervido também em áreas tecnológicas como o vídeo, a fotografia, a fotocopiadora, o computador ou o laser, procurando para estes uma linguagem específica enquanto suportes artísticos, mas conjugando-os com experiências de outros campos.
Paralelamente a este explorar da máquina e das suas especialidades, tem sido desenvolvido um tipo de arte que usa o corpo do próprio artista como principal elemento expressivo, que é a performance.
O facto de se privilegiar o corpo como forma de expressão, e desta se desenvolver paralelamente com o avanço técnico e tecnológico deve-se, por um lado, a uma inter-relação do ser humano com os aspectos evolutivos da sua sociedade, e, por outro, ao sobrevalorizar dos sentidos como terminais sensoriais de percepção e de comunicação com o mundo. Estes dois aspectos, que se ajustam perfeitamente, acentuam a analogia entre o homem e a máquina. A performance pelas suas particularidades, permite que essa relação se realize, o que vem multiplicar o caudal informacional e comunicativo do acto estético.
A performance deve, portanto, ser entendida como um suporte onde se conjugam diversas expressões e técnicas artísticas, resultando dessa conjugação uma multiplicidade de experiências que se inter-relacionam. Por isso, mais do que a arte da acção, a performance é a arte da interacção. O que vem colocar em questão as “artes plásticas” (pintura, escultura, gravura, etc.) enquanto objectos artísticos. As transformações de todo este processo evolutivo tornam rapidamente ultrapassado o objecto de arte que não se pode alterar a si próprio. Este é apenas motivo de contemplação, porque imutável, perpétuo, mítico… enfim, acabado.
O espírito da sociedade moderna é o de viver intensamente. Existe um surdo apelo à participação activa em todas as situações da nossa vivência. Vive-se cada vez mais profundamente, e a verdadeira riqueza são as experiências que acumulamos e não os objectos que possuímos. Mais importante que “ter” arte é “viver” arte. De una forma participativa, crítica e igualmente intensa.
A performance, como acção estética, é por excelência a arte da experiência, a arte da intensidade e da comunicabilidade, a arte do maior número de signos em cada instante da sua evolução, a arte da constante transformação narrativa, cromática e formal. Onde o artista deixa de ser, também, o criador contemplativo da própria obra, para passar a viver a arte que cria, e a criar uma arte que vive.
A arte tem como metodologia inerente, inferir nos canais sensoriais do observador, de modo a provocar-lhe uma reacção. O performer tem consciência de que existem outros sentidos perceptivos para além da visão, e que determinada mensagem pode ser captada, com vantagem, se o for através de mais do que um desses sentidos, conjuntamente. Como proporciona uma série de leituras ao mesmo tempo, a performance necessita também de uma leitura simultânea de todos os factores que a integram, no momento em que se revelam. Por essa razão, o público não se pode limitar a fazer uma leitura passiva daquilo que está a acontecer. Perante uma intervenção estética, o público deixa de ser o mero espectador contemplativo para, com a sua capacidade de reacção, passar, muitas vezes, a fazer parte dos recursos com que o performer conta para a realização do seu trabalho.
O modo como o público interpreta aquilo que está a ver, e a possibilidade que tem em reagir imediatamente ao que se está a passar, vem alterar a relação tradicional entre o artista, a obra e o público. Porque a performance, ao ser executada naquele momento, permite que o público tenha uma participação efectiva, num espaço de tempo onde o imprevisível está sempre presente.
Ao contrário das outras “artes plásticas” e da arte que tem como suporte os diversos média, a performance não é unidireccional, isto é, não veicula a sua mensagem apenas num sentido. O público ao reagir aos estímulos do artista, está a entrar em diálogo com ele e, por essa razão, a mensagem processa-se nos dois sentidos.
Existe toda uma teia de emoções e de reacções que se vão sucedendo com o desenrolar da performance e que se revelam importantes para o desenvolvimento da mesma. Por essa razão, uma performance só se define como tal quando há uma relação empática entre o operador, a acção e o público.

O fluxo de informações infere de um modo cada vez mais profundo nas nossas vidas e na nossa maneira de ser. A performance, como arte sensível a todas estas pressões e realidades, integra em si todo um aglumerado de experiências vindas de outros campos, que tratados e explorados esteticamente segundo uma linguagem própria, resultam numa arte em constante transformação e evolução.
O corpo, o movimento, a mudança, a irrepetibilidade, o efémero e a alteração das relações entre o artista e o público, são as características mais marcantes desta arte, que explorando o desconhecido a diversos níveis se multiplica em novas formas expressivas

FERNANDO AGUIAR

Sem comentários ainda

Ainda sem comentários.

RSS dos Comentários URI de Identificação do Trackback

Publicar um comentário