as edições de mandrágora

by fundação velocipédica

armas de sedução maciça

Em 1943, o químico Dr. Albert Hoffman, após uma viagem de bicicleta entre o seu laboratório e a sua casa escreveu nos seus diários: “Voltei a casa de Bicicleta envolto por uma estranha inquietude e uma persistente embriaguez ao nível da consciência. Era uma sensação nada desagradável de intoxicação que mantinha a imaginação extremamente estimulada. Pude então observar uma torrente de figuras caleidoscópicas de todas as cores ganhando formas fantásticas durante o caminho”.
Uma viagem de bicicleta pode ser uma experiência alucinante… é preciso ter cuidado com este instrumento do Demo com propriedades alucinogénias que parece intoxicar a mente, distorcer a realidade e estimular a imaginação… o facto de momentos antes o Dr. Hoffman ter descoberto e experimentado um composto químico, o qual denominou de LSD-25, é uma mera coincidência sem relevância. A culpa é da Bicicleta.
Na Idade Média as Bruxas recorriam à planta de Mandrágora para fazer as suas poções e contactar com o demónio. Aliás, as propriedades alucinogénias da Mandrágora são bem conhecidas. Aqui, a culpa é mesmo da Mandrágora. Outro instrumento do Demo.
Entre Mandrágoras e Bicicletas plantamos ilusões, enraizamos o sonho e regamos a intoxicação cultural da mente. Estranho apenas que em 25 anos de actividade cultural ainda não tenhamos sido detidos pelas forças da ordem. É que somos uma associação terrivelmente perigosa… temos armas de sedução maciça que utilizamos em cada espectáculo, em cada performance, em cada publicação…

Bruno Vilão

 

 

OS EFEITOS DE MANDRÁGORA OU TANTO DÁ ATÉ QUE FURA

 

Os antigos atribuíam à mandrágora propriedades afrodisíacas e outras virtudes mágicas. Na Alemanha desde o tempo dos Godos, mandrágora significa ao mesmo tempo bruxa e raiz. Maquiavel deu o titulo de Mandrágora a uma das suas peças onde o emprego desta erva era considerado como bom para tornar fecundas as mulheres estéreis e esta mesma ideia aparece numa comedia grega de Aléxis, em que se alude ao poder de fecundidade que dá aquela planta. Segundo a lenda a árvore do paraíso era uma Mandrágora. E foi o que se viu. Todos acreditavam ver nesta árvore a forma humana, quer de homem quer de mulher, e, segundo Plínio a primeira era branca e a segunda era negra. O poder maléfico da Mandrágora era tal que não podia ser arrancada directamente, para o que se empregava um cão a cuja cauda se atava à planta chamando depois, o dono, o animal que ao correr a arrancava pela raiz. Mesmo assim, convinha antes fazer três círculos à volta da erva. Na Europa, em alguns países, a planta é considerada como uma feiticeira, ou como uma fada. O Santo Ofício queimou algumas almas porque elas tinham mandrágoras em casa. Não percebo qual a dúvida em culpar esta “seita” que foi agora descoberta por utilizar a mandrágora. Eu não sou do tempo dos Godos nem dos Romanos, posso todavia confirmar que a poção servida pelos rapazes que “utilizaram” a “mandrágora” nos últimos vinte anos deixaram muitas mulheres fecundas e puseram muitos padres com vontade de os mandar queimar. Isto só por si dá razão a quem considera aquela raiz uma poção mágica, que quando bem utilizada tem efeitos terríveis e devastadores nas mentes dos homens e das mulheres que “inalam” semelhante produto. Juro pois perante as altas instancias desta tribo à beira mar plantada que tal “pasquim” deve ser imediatamente proibido e os seus feitores desterrados para Hades para que com as suas aleivosidades licenciosas não continuem a prejudicar a sã juventude deste torrão. Mais afirmo que as copias das peças que os réus tiveram o desplante de apresentar a público, AUGA(PEDRO OOM), ANTÓNIO MARIA LISBOA, CESARINY, FRANKENSTEIN e outras sejam reduzidas a pó em almofariz de prata e lançadas à profundeza das chamas donde jamais deveriam ter saído. Quanto ao cão que os rapazes costumam utilizar para arrancar as Mandrágoras pela raiz, que a besta seja perdoada porque ele só respondeu ao assobio dos donos, e que o mesmo seja entregue ao Santo Canil da Misericórdia onde deverá ser vigiado, não tenha no entanto aprendido com os donos a escrever, ou a praticar outros actos malfazejos.
Lisboa, tantos do tal de mil novecentos e noventa e tal
A Testemunha a Ferros
Victor Belém

Texto publicado em Bicicleta nº 4 (nos 20 anos de Mandrágora)

 

 

 

 

 

 

 

 

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