estavamos em guerra… depois esquecemo-nos

by fundação velocipédica

 

é
era
a guerra colonial
em 1997 fiz (fizemos) um espectáculo
estreou na galeria “moçambique kultural” com a presença do poeta
mário cesariny de vasconcelos (nosso homenageado – nosso de mandrágora e da galeria do pintor inácio matsine)
da galeria
o espectáculo passou para o museu da electricidade (belém)
foi um rever duma guerra com o humor surreal qb
os espaços encheram
“mas ninguém viu”
o costume
e
isto vem a lume
tendo em conta as reflexões (lidas) no facebook

vivemos num país onde a crítica está sempre ausente
porque crítica é apanágio da maledicência… (aqui)
vivemos num país onde tudo é aceite
até que os forçados sejam encaminhados para uma guerra como uma vara de porcos a caminho do matadouro

foi isso “as memórias de um guerreiro forçado” que assinei com os restantes cúmplices de uma mostra dramática
a guerra
o desencanto
a miséria
a descrença
a demência
as chagas
marcas que se estendem à vertente kultural

não
não fizemos o espectáculo bem comportado
e
com mensagens subliminares para o povinho se sentir revoltado
e
apaparicado pelos mestres que tudo sabem e se tornam
num estalar de dedos
como grandes educadores
ou (pior)
messias

agimos outrossim
num acto de criatividade e espontaneidade
que irrompeu
estamos convictos (ainda hoje) que sim – irrompeu
não demos espaço a paternalismos políticos
e
deixámos que o público fumasse durante o acto
logo
tivemos casas cheias mas ninguém viu
desenvolvemos um projecto (e muitos outros) mas saiu-nos sempre do bolso (do pelo)

todavia continuámos/continuamos
porque
ainda que não acreditemos no país que nos desrespeita (a mim há 63 anos)
acreditamos em nós
e
isso é a razão de estar (aqui)
até que passemos à clandestinidade ou à situação saudável de apátridas

pela parte que me toca
abstenho-me
porque já não acredito
pela parte que me toca
lamento
que se afirme que nada há
quando
de facto

mas impede-se de forma sistemática
e
muitas vezes
ardilosa
que se saiba que há
que existe

a guerra foi um facto (a mim calhou-me em sorte a guiné)
mas ninguém fala
porque não convém
porque as vítimas desse “facto” não têm direito à palavra

a farsa continua
os espectáculos
os poemas
os filmes
as memórias
nunca existiram

vá lá saber-se o porquê…

talvez porque os campos estavam minados
já nem sabíamos quais as minas nossas ou dos “inimigos”
apenas nos foi revelado que
as nossas (minas)
não matavam
estavam benzidas pelo capelão
e
protegidas pela virgem santa

a padroeira das terras lusas

 

nota: o texto saiu numa edição de “Crise Luxuosa” (editora falida e condenada à morte ao 7º livro)

 

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